Como chegar ao alto rendimento
Neste primeiro "Dia de Treino”, nada melhor do que contarmos com o actual Treinador campeão europeu, ao serviço do Sporting CP, Paulo Freitas. Consensualmente um dos melhores técnicos da actualidade, para além dos títulos, tem deixado uma imagem de exigência, honestidade, frontalidade e de muito trabalho que vai caracterizando o seu percurso.
Nesta crónica, o Paulo aceitou o desafio de recordar o percurso que o levou até ao topo, deixando a receita para qualquer jovem treinador que queira seguir esse caminho.
Pedro Gonçalves
Coordenador do Projeto da AP Lisboa, “Dar voz aos Treinadores”.

Ambição, trabalho, liderança e adaptabilidade
Joguei hóquei em patins durante 25 anos e tinha claro na minha cabeça que um dia gostaria de ser treinador e dar os primeiros passos com camadas jovens.
A experiência de jogador é importante, mas para ser treinador é preciso algo mais. Para além da componente técnica/tática/observação/análise é necessária uma lógica pedagógica que envolve organização, liderança, comunicação, gestão, estratégia e ainda inteligência emocional (capacidade de reconhecer os seus próprios sentimentos e os dos outros, assim como a capacidade de lidar com eles. Neste ponto aconselho ler literatura sobre o tema, um dos mais fascinantes da Psicologia).
O meu primeiro trabalho como treinador foi com escalões sub-13 e sub-17 e, mais tarde, entrei na II Divisão com o AC Feira. No início as coisas correram muito bem. O clube projetou-se e atingiu objetivos interessantes. Estivemos praticamente a subir de divisão e só não o conseguimos nas últimas jornadas porque havia equipas mais bem apetrechadas.
Foi interessante trabalhar com jogadores que não tinham qualquer remuneração. Estavam a representar um clube pelo gosto que tinham pela modalidade e pela motivação e inspiração transmitida no sentido de serem rigorosos, exigentes e de quererem mais e melhor. O meu desafio foi, no fundo, passar alguns conceitos de Alto Rendimento para aquele patamar. Acredito que esse desafio foi superado com sucesso.
Surgiu depois a Académica de Espinho, clube que representei durante cinco anos com uma grande dose de aprendizagem. Foi um trabalho gratificante, em que lidei com jovens jogadores, tentando motivá-los e ajudá-los a serem cada dia melhores. Também eu tive de ter essa vontade de melhorar todos os dias. Tanto nos aspectos técnicos e tácticos como na gestão de recursos humanos.
Seguiu-se uma nova etapa: o Barcelos, que entrou, de novo, na rota dos títulos e reconquistou a cidade. O Sporting veio depois. É um clube de referência nacional e dimensão internacional que conquistou o título nacional, europeu e também a Taça Continental. A grandeza do clube obriga-nos a estar permanentemente preparados e motivados e, neste percurso que aqui descrevo de forma sucinta, quero expressar a importância do trabalho, dos objetivos, da responsabilidade, das expectativas próprias e também as dos outros, sem nunca esquecermos que cada treinador é, em todas as suas ações, o produto das suas caraterísticas e limitações.
Progredir na carreira de treinador, passando pelos diferentes patamares, foi importante porque me deixaram gradualmente mais preparado e mais motivado. A todos os jovens treinadores digo: definam objetivos e tenham sempre presente que, mais do que o conhecimento, é fundamental saber transmiti-lo, porque o treinador tem de saber captar e motivar os outros.
Um treinador deve pensar pela própria cabeça, criar as próprias metodologias, adaptando-as e mantendo-se de espírito aberto para atingir a evolução constante. Faz parte do nosso crescimento olharmos para pessoas que possam servir de exemplo de carreira, mas sem nunca deixarmos de ser nós próprios.
Além da componente técnica ou tática, um treinador tem de ter a capacidade de inspirar todas as pessoas que lidera para que juntos possam conquistar os objetivos a que se propõem.
Temos de ser observadores e aprender com os outros, mesmo com os maus exemplos, porque é aí que aprendemos o que não devemos ser ou fazer. Tudo isto, contudo, não fará sentido se não desfrutarmos daquilo que fazemos. Sem paixão e sem alma dificilmente haverá sucesso.
Um treinador é-o em cada momento. O trabalho não se esgota durante o treino ou o jogo. É importante passar muito tempo em pavilhões, ver jogos de camadas jovens, de outras equipas: observar, observar, observar.
Investi muito tempo nisso e, ao longo do tempo, fui compilando um conjunto de informações e construindo a minha matriz. Procurem essa aprendizagem porque é a ver que aprendemos muito. Não deixem, no entanto, de montar na vossa cabeça as vossas próprias ideias.
Não queiram aplicar diretamente o que veem, porque poderá ser informação sem aplicabilidade direta e isso pode conduzir a momentos de frustração.
Em síntese: muita paixão e gosto em partilhar. Há treinadores que não vêm a partilha com bons olhos, mas eu não concordo com essa forma de estar. Aprendemos muito com a partilha.
Precisamos de muito trabalho, de dedicação, de ambição, de coerência, de pés bem assentes no chão, de humildade quanto baste e também, obviamente, de sorte. Esta tem de nos acompanhar em muitos momentos para que surjam novas oportunidades. Contudo, a sorte não cai do céu aos trambolhões: dá muito trabalho.
São horas investidas em análise de jogos, movimentos, adversários, caraterísticas individuais de jogadores, para que possamos reduzir ao máximo as imprevisibilidades inerentes à competição. Às vezes essa é a diferença entre a bola entrar ou não. Há ainda uma máxima que devemos ter conta: quem trabalha de forma honesta, de forma aberta e com lisura é sempre premiado. Pode tardar um pouco mais, mas o trabalho é sempre recompensado.
E, por fim, mas não menos importante, em tudo o que fazemos, temos de nos sentir felizes. Temos de dizer para nós mesmos: “Eu sou feliz porque faço o que gosto e entrego-me de corpo e alma”. A felicidade é cada momento e temos que os aproveitar a todos.
Paulo Freitas
2020-02-19
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